Regência Verbal e Nominal: Guia Definitivo para Concursos

📅 09/06/2026⏱ 10 min de leitura
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A regência é o calcanhar de aquiles de muitos candidatos. Não precisa ser o seu.

Bancas de concurso, especialmente a Fundação Getúlio Vargas (FGV), usam a regência verbal e nominal para separar os candidatos que dominam a norma-padrão daqueles que apenas reproduzem o que ouvem no dia a dia. Uma única preposição errada pode alterar todo o sentido de uma frase ou, pior, invalidar uma alternativa que parecia perfeita. Entender a lógica por trás da regência não é decorar regras, é compreender a relação de poder entre as palavras. É um conhecimento que aparece em questões de gramática pura, reescritura de frases e até na análise de correção de trechos.

## Entendendo a Lógica da Regência: Quem Manda em Quem?

Pense na regência como uma relação de hierarquia. Existe um termo que “manda” (o regente) e um termo que “obedece” (o regido). A preposição é, muitas vezes, o elo que conecta esses dois termos, e a escolha dela não é aleatória.

### Regência Verbal: O Verbo é o Chefe

Aqui, o verbo (termo regente) exige um complemento (termo regido) específico. A grande questão é: esse complemento precisa de uma preposição?

1. Verbos que NÃO exigem preposição (Transitivos Diretos – VTD)

Eles se conectam diretamente ao seu complemento. A pergunta que você faz ao verbo é “o quê?” ou “quem?”.

* Exemplo simples: Eu comprei um livro. (Comprou o quê? Um livro).

  • Situação de prova: Um candidato me disse uma vez que errou uma questão por não perceber que o verbo `implicar`, no sentido de “acarretar” ou “resultar em”, é transitivo direto. Ele marcou como correta a frase “A falta de estudo implica em reprovação”. O correto, e que a banca exigia, é “A falta de estudo implica reprovação”. Esse “em” é um erro clássico, fruto da linguagem coloquial.

2. Verbos que EXIGEM preposição (Transitivos Indiretos – VTI)

Eles precisam de uma “ponte” (a preposição) para se conectar ao complemento. A pergunta ao verbo vem acompanhada da preposição: “de quê?”, “a quem?”, “em quê?”.

* Exemplo simples: Eu gosto de música clássica. (Gosta de quê? De música clássica).

  • Situação de prova: O verbo `obedecer` é um campeão de erros. Em uma prova da FCC, a frase era “Os cidadãos devem obedecer o novo regulamento”. Muitos candidatos deixaram passar. Porém, quem obedece, obedece a algo. O correto é “obedecer ao novo regulamento”.

3. Verbos que mudam de sentido com a regência (A mina de ouro das bancas)

É aqui que o jogo fica sério. A presença ou ausência de uma preposição, ou a troca dela, muda completamente o significado do verbo.

* Assistir:
* Sentido de “ver”, “presenciar” (VTI): Exige a preposição “a”.
* Exemplo: Nós assistimos ao jogo no estádio. (Vimos o jogo).
* Sentido de “ajudar”, “prestar assistência” (VTD): Não usa preposição.
* Exemplo: A enfermeira assistiu o paciente. (Ajudou o paciente).
* Sentido de “caber”, “pertencer” (VTI): Exige a preposição “a”.
* Exemplo: Assiste ao réu o direito de defesa. (Cabe ao réu).

* Aspirar:
* Sentido de “respirar”, “sugar” (VTD): Não usa preposição.
* Exemplo: O atleta aspirou o ar puro da montanha. (Respirou o ar).
* Sentido de “desejar”, “almejar” (VTI): Exige a preposição “a”.
* Exemplo: O candidato aspira ao cargo de Auditor Fiscal. (Deseja o cargo).

* Visar:
* Sentido de “mirar”, “apontar” (VTD): Não usa preposição.
* Exemplo: O caçador visou o alvo com precisão. (Mirou o alvo).
* Sentido de “objetivar”, “ter como meta” (VTI): Exige a preposição “a”.
* Exemplo: O projeto visa ao bem-estar da comunidade. (Objetiva o bem-estar).

* Esquecer / Lembrar:
* Sem pronome oblíquo (me, te, se…): São VTD, não usam preposição.
* Exemplo: Eu esqueci o compromisso. / Eu lembrei o compromisso.
* Com pronome oblíquo (esquecer-se / lembrar-se): São VTI, exigem a preposição “de”.
* Exemplo: Eu me esqueci do compromisso. / Eu me lembrei do compromisso.
* A banca adora misturar: “Eu me esqueci o compromisso” está errado.

## Regência Nominal: O Nome Também Dá Ordens

A mesma lógica se aplica a nomes (substantivos, adjetivos) e alguns advérbios. Eles também pedem um complemento regido por uma preposição específica. A regência nominal está mais ligada ao nosso vocabulário e uso culto da língua.

* Substantivos: admiração a/por, aversão a/por, dúvida acerca de/em/sobre.

  • Adjetivos: acessível a, compatível com, apto a/para, preferível a.
  • Advérbios: longe de, perto de.

Um erro comum que vejo em redações é com o adjetivo “preferível”. O candidato escreve: “É preferível estudar de manhã do que à noite”. A regência correta é com “a”: “É preferível estudar de manhã a estudar à noite”.

### Tabela Rápida de Regência Nominal

| Nome (Regente) | Preposição Exigida | Exemplo de Frase |
| :— | :— | :— |
| Ansioso | por, para | Estou ansioso pela sua chegada. |
| Apto | a, para | Ele está apto para o cargo. |
| Bacharel | em | Ela é bacharel em Direito. |
| Compatível | com | Sua proposta é compatível com a minha. |
| Medo | de | O menino tinha medo do escuro. |
| Respeito | a, com, por | Tenha respeito pelos mais velhos. |
| Alheio | a | Ele estava alheio aos problemas. |

## Exercício Resolvido Passo a Passo: Pensando como a Banca

Vamos analisar uma frase e corrigi-la, como se estivéssemos fazendo uma questão de reescritura.

Frase original: “O programa do governo visa em atender as populações carentes, o que implica com um alto investimento, algo que o ministro esqueceu-se o detalhe na apresentação.”

* Passo 1: Identificar os pontos críticos de regência.
Os verbos `visar`, `implicar` e `esquecer-se` são clássicos de prova. Vamos focar neles.

* Passo 2: Analisar o verbo `visar`.
Na frase, o sentido é de “objetivar”, “ter como meta”. Portanto, a regência correta exige a preposição “a”. O “em” está errado.
* Correção parcial: “O programa do governo visa a atender…”

* Passo 3: Analisar o verbo `implicar`.
O sentido é de “acarretar”, “resultar em”. Nesse caso, o verbo é transitivo direto (VTD) e não pede preposição. O “com” está errado.
* Correção parcial: “…o que implica um alto investimento…”

* Passo 4: Analisar o verbo `esquecer-se`.
A forma é pronominal (`esqueceu-se`). Como vimos na regra, quando usamos o pronome “se”, o verbo exige a preposição “de”. A frase não tem a preposição.
* Correção parcial: “…algo que o ministro esqueceu-se do detalhe…”

* Passo 5: Montar a frase correta.
“O programa do governo visa a atender às populações carentes, o que implica um alto investimento, algo de que o ministro se esqueceu na apresentação.” (Ajustei a estrutura final para soar mais fluida e correta, transformando em “algo de que se esqueceu”).

## Questões de Concurso Comentadas: O Jogo Real

Questão 1 (CEBRASPE – Adaptada)

Julgue o item a seguir quanto à correção gramatical.

A decisão do comitê implica em novas diretrizes para todos os setores, e os gerentes devem agora obedecer a elas rigorosamente, assistindo seus subordinados na transição.

( ) Certo ( ) Errado

Gabarito Comentado:
Errado. A questão apresenta três verbos de regência complexa.

  1. `implicar`: No sentido de “acarretar”, é VTD. O correto seria “implica novas diretrizes”. O uso do “em” invalida o trecho.
  2. `obedecer`: Está correto. Quem obedece, obedece “a” algo. “Obedecer a elas” está perfeito.
  3. `assistir`: No contexto, o sentido é de “ajudar”, “dar assistência”. Nesse caso, é VTD. “Assistindo seus subordinados” está correto.

Contudo, o primeiro erro já torna o item inteiro errado.

Questão 2 (FGV – Adaptada)

Assinale a frase em que o verbo “visar” é empregado com o mesmo sentido que apresenta em “O palestrante visava ao sucesso do evento”.

a) O arqueiro visou o centro do alvo, mas errou por pouco.
b) Ao preencher o cheque, vise-o corretamente para evitar fraudes.
c) Todos os nossos esforços visavam a uma solução pacífica para o conflito.
d) O fiscal visou todos os passaportes antes do embarque.
e) Com o binóculo, o guarda visava a longa distância da costa.

Gabarito Comentado:
Alternativa C. No enunciado, “visava ao sucesso” tem o sentido de “almejava”, “objetivava”, exigindo a preposição “a”. Precisamos encontrar a alternativa com o mesmo sentido e regência.
a) “visou o centro do alvo” = mirar (VTD). Sentido diferente.
b) “vise-o corretamente” = pôr visto, assinar (VTD). Sentido diferente.
c) “visavam a uma solução” = almejavam, objetivavam (VTI). Mesmo sentido e regência do enunciado.
d) “visou todos os passaportes” = pôr visto (VTD). Sentido diferente.
e) “visava a longa distância” = mirar (VTD). Sentido diferente.

Questão 3 (FCC – Adaptada)

A regência verbal está em conformidade com a norma-padrão na frase:

a) Eu prefiro mais a tranquilidade do campo do que a agitação da cidade.
b) O filme que assistimos ontem foi excelente, recomendo a todos.
c) Lembrei-me que a prova seria no domingo seguinte.
d) A população anseia por paz e aspira a dias melhores.
e) O chefe procedeu a investigação sobre o ocorrido na empresa.

Gabarito Comentado:
Alternativa D. Vamos analisar cada uma:
a) Incorreta. O verbo `preferir` é VTDI e não aceita termos intensificadores como “mais” ou “muito menos”. A regência correta é “Prefiro a tranquilidade do campo à agitação da cidade”.
b) Incorreta. O verbo `assistir` no sentido de “ver” exige a preposição “a”. Correto: “O filme a que assistimos ontem…”.
c) Incorreta. O verbo `lembrar-se` é pronominal, exigindo a preposição “de”. Correto: “Lembrei-me de que a prova…”.
d) Correta. O verbo `ansiar` rege a preposição “por” (“anseia por paz”), e o verbo `aspirar` no sentido de “almejar” rege a preposição “a” (“aspira a dias melhores”). Ambas as regências estão perfeitas.
e) Incorreta. O verbo `proceder` no sentido de “dar início”, “realizar”, exige a preposição “a”. Correto: “O chefe procedeu à investigação…”.

## Armadilhas de Banca: O Que Cada Uma Quer de Você

* CEBRASPE: Foco na correção gramatical absoluta. Eles colocam uma frase longa com vários verbos e nomes. Se um único ponto de regência estiver errado, o item todo está errado. A armadilha é a pressa; você vê uma regência correta e marca “Certo” sem analisar a frase inteira.

  • FGV: É a rainha da semântica. Ela não quer saber apenas se a regência está certa, mas o que ela significa. A armadilha da FGV é apresentar alternativas gramaticalmente corretas, mas com sentidos diferentes do que foi pedido no enunciado, como vimos na questão modelo.
  • FCC: É a mais tradicional. Adora os verbos clássicos: `preferir`, `obedecer`, `esquecer/lembrar`, `implicar`. A armadilha é confiar no uso coloquial. A FCC cobra a regra “preto no branco” da gramática normativa, sem flexibilidade.
  • VUNESP: Costuma ser mais contextual. A regência aparece em questões de reescrita de frases de um texto de apoio. A armadilha é não perceber que, ao trocar um verbo por um sinônimo, a regência pode mudar completamente, exigindo ajuste no resto da frase.

## Conclusão: A Regência Deixa de Ser um Problema com Prática

Dominar a regência verbal e nominal é um diferencial competitivo. Não se trata de memorizar uma lista infinita, mas de entender a lógica por trás das escolhas e praticar com os verbos e nomes que as bancas mais amam cobrar. Cada questão resolvida solidifica esse conhecimento e treina seu olhar para encontrar os erros que a maioria dos candidatos não vê.

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