50 Pegadinhas de Português: Desvende e Gabarite Concursos

📅 10/06/2026⏱ 10 min de leitura
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## 50 Pegadinhas de Português: Desvende e Gabarite Concursos

A prova de Língua Portuguesa não elimina apenas o candidato despreparado. Ela derruba, com frequência, aquele que estudou a teoria, mas não treinou o olhar para a malícia da banca. As “pegadinhas” não são erros; são aplicações da norma culta em contextos que induzem ao erro por desatenção ou por uma interpretação superficial da regra.

Bancas como a Fundação Getulio Vargas (FGV) são mestras nisso. Elas não querem saber apenas se você decorou a regra da crase, mas se entende a função sintática e semântica de cada termo na frase para aplicá-la corretamente em um texto complexo. O CEBRASPE, por sua vez, explora a sutileza em suas assertivas de Certo ou Errado, onde a troca de um pronome ou a inserção de uma vírgula pode alterar completamente o sentido e, consequentemente, o gabarito. Entender essas armadilhas é a diferença entre a aprovação e mais um ano de estudos.

### As Pegadinhas Mais Comuns e Como Desarmá-las

Vamos analisar os campos mais férteis para as bancas criarem suas armadilhas. Não se trata de uma lista, mas de um mapa para você navegar com segurança.

1. Crase: Muito Além do “a + a”

A regra básica (junção da preposição “a” com o artigo “a”) é só o começo. A pegadinha mora nas exceções e nos casos que exigem análise sintática.

* Exemplo Simples: Vou à praia. (Quem vai, vai a algum lugar + a praia).

  • Pegadinha 1 (Pronomes Demonstrativos): A crase ocorre antes de aquele, aquela, aquilo. O candidato esquece que o “a” inicial desses pronomes pode se fundir com a preposição.

* Errado: Fiz referência a aquele documento.
* Correto: Fiz referência àquele documento. (Quem faz referência, faz referência a algo).

  • Pegadinha 2 (“À qual”): O uso da crase antes do pronome relativo “que” é proibido, mas antes de “a qual” (e suas variações) é obrigatório se o verbo exigir a preposição “a”.

* Situação de Prova: “A reunião à qual me referi foi cancelada.” (Correto, pois o verbo referir-se exige a preposição “a”). A banca troca por “a que” para te confundir.

  • Pegadinha 3 (Palavras Implícitas): A famosa crase em “à moda de” ou “à maneira de”, mesmo que essas expressões não estejam escritas.

* Exemplo: Ele fez um gol à Pelé. (Subentende-se: à moda de Pelé). Sem a crase, o sentido seria outro.

2. Concordância Verbal: O Sujeito Escondido

A banca adora esconder o sujeito no final da frase, usar um sujeito composto ou separá-lo do verbo por um longo aposto explicativo. Seu trabalho é encontrá-lo, não importa onde ele esteja.

* Exemplo Simples: Os candidatos estudam muito. (Sujeito “Os candidatos” no plural, verbo “estudam” no plural).

  • Pegadinha 1 (Sujeito Invertido): O verbo vem antes do sujeito. É o caso clássico de verbos como existir, acontecer, ocorrer.

* Errado: Existe muitas vagas neste edital.
* Correto: Existem muitas vagas neste edital. (O sujeito é “muitas vagas”. O que existe? Muitas vagas).

  • Pegadinha 2 (Verbo Haver vs. Existir): O verbo haver no sentido de existir é impessoal, fica sempre na 3ª pessoa do singular. A banca o substitui por existir e pede para você julgar a correção, ou vice-versa.

* Correto: Havia muitos problemas na cidade.
* Correto: Existiam muitos problemas na cidade.
* Armadilha da Banca: “A substituição de ‘Havia’ por ‘Existia’ preserva a correção gramatical.” (Errado, pois o correto seria ‘Existiam’).

  • Pegadinha 3 (Partícula “SE”): O “se” pode ser partícula apassivadora ou índice de indeterminação do sujeito. Isso muda tudo.

* Partícula Apassivadora (PA): O verbo concorda com o sujeito paciente. Dica: tente passar para a voz passiva analítica.
* Alugam-se salas. (Salas são alugadas. Sujeito “salas” no plural).
* Índice de Indeterminação do Sujeito (IIS): O verbo fica sempre no singular. Ocorre com verbos que não pedem objeto direto (VI, VLI, VTI).
* Precisa-se de funcionários. (O sujeito é indeterminado. O verbo fica no singular).

3. Regência: A Preposição que Muda o Jogo

A regência verbal e nominal testa se você conhece a preposição exigida por um verbo ou nome. A pegadinha é usar um verbo com múltiplos significados (e múltiplas regências).

* Exemplo Simples: Eu gosto de chocolate. (Verbo gostar pede a preposição “de”).

  • Pegadinha 1 (Verbo Implicar): No sentido de acarretar, resultar, é transitivo direto (sem preposição). O uso coloquial com “em” é um erro constante em provas.

* Errado: Sua atitude implicará em demissão.
* Correto: Sua atitude implicará demissão.

  • Pegadinha 2 (Verbos Assistir, Visar, Aspirar): Os “campeões de audiência” das pegadinhas de regência.

* Assistir (ver): Pede preposição “a”. Eu assisti ao jogo.
* Assistir (ajudar): Não pede preposição. O médico assistiu o paciente.
* Visar (almejar): Pede preposição “a”. Ele visava ao cargo de auditor.
* Visar (mirar): Não pede preposição. O atirador visou o alvo.
* Aspirar (desejar): Pede preposição “a”. Eu aspiro à carreira pública.
* Aspirar (respirar): Não pede preposição. Nós aspiramos o ar puro da montanha.

4. Uso dos “Porquês”: Simples, mas Derruba Candidatos

Parece básico, mas a velocidade da prova faz com que muitos errem.

| Uso | Regra | Exemplo |
| :— | :— | :— |
| Por que | Início de perguntas ou substituível por “pelo qual” (e variações). | Por que você não veio? / A razão por que faltei é pessoal. |
| Porque | Respostas, explicações, causa. Substituível por “pois”. | Não fui porque estava doente. |
| Por quê | Final de frase (antes de pontuação). | Você não estudou, por quê? |
| Porquê | Substantivo. Significa “motivo”, “razão”. Vem com artigo. | Ninguém sabe o porquê de sua decisão. |

### Armadilhas de Banca: O Estilo de Cada Uma

* CEBRASPE: Especialista em reescritura de frases. A pegadinha está nos detalhes: “A retirada da vírgula em (…) preserva a correção gramatical, mas altera o sentido original”. Eles testam se você percebe que uma oração explicativa (com vírgulas) se torna restritiva (sem vírgulas), mudando o que é dito. Outra armadilha comum é com o uso do pronome “cujo”, testando a regência do termo posterior.

  • FGV: Foco na semântica e na polissemia. A FGV pega uma palavra comum, como “até”, e cria alternativas onde ela funciona como preposição, advérbio ou palavra de inclusão. A pegadinha não é puramente gramatical, mas de interpretação do valor da palavra no contexto. Eles adoram textos filosóficos para dificultar a localização de referentes de pronomes.
  • VUNESP: Mais direta e gramatiqueira. As pegadinhas são clássicas: concordância com sujeito composto posposto ao verbo, regência de verbos pouco usuais no dia a dia (ex: anuir, anuir a algo) e crase em locuções adverbiais femininas (às vezes, à noite, à direita). É uma banca que recompensa a memorização das regras e exceções.

### Exercício Resolvido Passo a Passo

Vamos analisar uma frase complexa que poderia cair em qualquer prova.

Frase: “Aos servidores públicos, cujo trabalho a sociedade tanto preza, cabe a responsabilidade de garantir os serviços essenciais.”

Análise passo a passo:

1. Inversão Sintática: A frase começa com “Aos servidores públicos”. Isso é um objeto indireto deslocado. A ordem direta seria: “A responsabilidade de garantir os serviços essenciais cabe aos servidores públicos…”. As bancas invertem a ordem para dificultar a identificação do sujeito (“A responsabilidade de garantir os serviços essenciais”) e do verbo (“cabe”).

  1. Uso do “Cujo”: O pronome relativo “cujo” indica posse e concorda com o termo seguinte (“trabalho”), mas se refere ao termo anterior (“servidores públicos”). A pegadinha está na regência do verbo que vem depois dele. O verbo é “preza”. Quem preza, preza algo ou alguém. É um verbo transitivo direto. Por isso, não há preposição antes de “cujo”. Se o verbo fosse “referir-se”, a frase seria “…cujo trabalho a sociedade tanto se refere a” (estaria errado) ou, na forma culta, “a cujo trabalho a sociedade tanto se refere”. O CEBRASPE adora essa estrutura.
  2. Concordância do Verbo “Caber”: O verbo “cabe” está no singular. O que “cabe”? “A responsabilidade de garantir os serviços essenciais”. Todo esse bloco é o sujeito da oração. Como o núcleo é “responsabilidade” (singular), o verbo fica no singular. A banca tentaria te induzir ao erro colocando “cabem”, para concordar com o termo inicial “servidores públicos”, que não é o sujeito.

### Questões Comentadas no Estilo das Bancas

Aqui estão 3 questões modeladas para você sentir o estilo de cada examinador.

1. Questão Estilo CEBRASPE (Certo/Errado)

(CEBRASPE – Adaptada) Julgue o item a seguir quanto à sua correção gramatical e coerência.

Texto: A crise hídrica, que afeta diversas regiões do país, impõe aos governantes a adoção de medidas urgentes, as quais nem sempre são populares.

Assertiva: A substituição de “as quais” por “que” manteria a correção gramatical e o sentido original do texto.

Gabarito Comentado:
CERTO. O pronome relativo “as quais” retoma “medidas urgentes”. Ele pode ser substituído por “que” sem prejuízo gramatical ou semântico, pois “que” é um pronome relativo universal. A frase ficaria: “…impõe aos governantes a adoção de medidas urgentes, que nem sempre são populares”. A presença da vírgula antes do pronome relativo indica que a oração é explicativa, e essa característica é mantida com a troca. A banca testa aqui o conhecimento sobre a versatilidade do pronome “que”.

2. Questão Estilo FGV (Múltipla Escolha)

(FGV – Adaptada) Assinale a alternativa em que o termo “mesmo” possui classe gramatical diferente dos demais.

a) Os funcionários fizeram o trabalho eles mesmos.
b) A diretora mesma reconheceu o erro no documento.
c) Foi um erro mesmo, não houve má-fé.
d) O relatório foi entregue no mesmo dia do prazo final.
e) Mesmo cansado, o candidato continuou a revisão.

Gabarito Comentado:
Letra E. A FGV é mestre em explorar a polissemia e as diferentes classes gramaticais de uma mesma palavra.
a) mesmos: pronome demonstrativo com valor de reforço (= próprios).
b) mesma: pronome demonstrativo com valor de reforço (= própria).
c) mesmo: advérbio de intensidade (= realmente).
d) mesmo: pronome demonstrativo (= idêntico).
e) Mesmo: conjunção concessiva (= embora, ainda que).
A pegadinha está em diferenciar os usos. Nas alternativas A, B e D, “mesmo” atua como pronome, e em C, como advérbio. Já na alternativa E, ele introduz uma oração com sentido de concessão, funcionando como uma conjunção. É a única com essa função.

3. Questão Estilo VUNESP (Múltipla Escolha)

(VUNESP – Adaptada) A frase que está em conformidade com a norma-padrão de concordância verbal é:

a) Fazem cinco anos que se discute as reformas administrativas.
b) Haviam muitos processos a serem analisados pela comissão.
c) Devem existir soluções mais práticas para os problemas apontados.
d) Faltou, para a aprovação do projeto, apenas dois votos.
e) Ouviu-se por toda a sala os aplausos ao palestrante.

Gabarito Comentado:
Letra C. A VUNESP é direta e cobra as regras clássicas.
a) Errado. O verbo “fazer” indicando tempo decorrido é impessoal (singular): “Faz cinco anos”. Além disso, o correto seria “se discutem as reformas”, pois “as reformas” é o sujeito paciente.
b) Errado. O verbo “haver” no sentido de “existir” é impessoal (singular): “Havia muitos processos”.
c) Correto. O verbo “existir” é pessoal e concorda com o sujeito “soluções mais práticas”. Como está em uma locução verbal (“Devem existir”), o verbo auxiliar (“Devem”) vai para o plural.
d) Errado. O sujeito é “apenas dois votos” (plural). O verbo deveria ser “Faltaram”.
e) Errado. O sujeito é “os aplausos” (plural). O verbo deveria ser “Ouviram-se”. A banca testa a concordância com a partícula apassivadora “se”.

O segredo para não cair nessas armadilhas é duplo: dominar a teoria e, principalmente, resolver centenas de questões da sua banca-alvo. É esse treino que calibra seu olhar para identificar onde o examinador tentará te derrubar. A gramática normativa é o mapa, mas a resolução de questões é a experiência de dirigir no trânsito real.

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