Exercícios de Português para Concurso: Como Praticar e Evoluir Rápido
A disciplina de Língua Portuguesa não é apenas mais um item no seu edital; ela é, na maioria das vezes, o fator que decide quem entra e quem fica de fora. Em concursos de alto nível, a nota de corte é tão alta que um ou dois pontos em português separam o aprovado do próximo da lista. Bancas como a FGV, por exemplo, são notórias por elaborar provas que exigem não apenas o domínio da norma culta, mas uma capacidade de interpretação e raciocínio que derruba candidatos despreparados. Ignorar a prática constante de exercícios é o caminho mais curto para a frustração.
Seu objetivo não é se tornar um gramático, mas um especialista em resolver questões da sua banca. Isso exige método. Não basta saber a regra; é preciso entender como ela é cobrada, quais são as pegadinhas recorrentes e como o examinador tenta induzi-lo ao erro. Vamos dissecar um dos tópicos mais temidos e recorrentes: o uso da crase.
## Desvendando a Crase: Da Regra Básica às Exceções que Derrubam Candidatos
A crase assusta porque muitos candidatos tentam decorá-la em vez de entendê-la. O acento grave (` ` ) indica a fusão de duas vogais “a”. Na prática, quase sempre se trata da preposição a exigida por um verbo ou nome, somada ao artigo feminino a(s) que acompanha um substantivo.
### A Lógica por Trás do Acento Grave
A maneira mais eficaz de verificar a necessidade da crase é substituir a palavra feminina por uma masculina correspondente. Se a combinação “ao(s)” surgir, a crase é obrigatória.
* Exemplo simples: “Refiro-me à situação atual.”
- Teste: Troque “situação” (feminino) por “problema” (masculino). A frase se torna “Refiro-me ao problema atual.” A presença do “ao” confirma a crase. Quem se refere, se refere a alguma coisa. “Problema” pede o artigo o. A soma de `a + o` resulta em `ao`. Logo, a soma de `a + a` resulta em `à`.
### Casos Obrigatórios que Você Precisa Dominar
Além da regra geral, existem situações fixas que exigem o acento grave. Memorizá-las economiza um tempo precioso na prova.
* Locuções adverbiais femininas: `às vezes`, `à noite`, `à tarde`, `à direita`, `à esquerda`, `às pressas`.
* Exemplo: O candidato saiu às pressas após a prova.
- Locuções prepositivas e conjuntivas: `à medida que`, `à proporção que`, `à custa de`.
* Exemplo: O nervosismo aumentava à medida que o tempo passava.
- Indicação de horas exatas:
* Exemplo: A reunião começará às 15h. (Cuidado: “Reunião marcada para as 15h” não tem crase, pois a preposição é “para”).
- Expressão “à moda de” (mesmo que implícita):
* Exemplo: Ele marcou um gol à Pelé. (Subentende-se: à moda de Pelé).
### Casos Proibidos: Onde a Maioria Escorrega
É aqui que as bancas separam os candidatos atentos dos desatentos. A crase NUNCA ocorre:
* Antes de palavras masculinas: “Andar a cavalo”, “pagamento a prazo”.
- Antes de verbos no infinitivo: “Estou disposto a colaborar”.
- Antes da maioria dos pronomes de tratamento: “Dirijo-me a Vossa Excelência…” (Exceções: senhora, senhorita, dona).
- Antes de pronomes indefinidos, demonstrativos (este, esse) e pessoais: “Não me refiro a ela”, “Entregue o relatório a esta gerente”.
- Em expressões com palavras repetidas: “Ficamos face a face”.
### Casos Facultativos: A Zona Cinzenta da Prova
As bancas adoram questões que envolvem o uso facultativo, pois testam um conhecimento mais aprofundado. O uso da crase é opcional em três situações:
1. Antes de nomes próprios femininos: “Enviei uma mensagem a/à Mariana.” (Se Mariana for sua amiga íntima, o artigo é comum, então a crase é usada. Se não, a preposição “a” basta. Na dúvida, a gramática permite ambos).
- Antes de pronomes possessivos femininos (minha, sua, nossa, etc.): “Agradeço a/à sua atenção.” (O uso do artigo antes desses pronomes é opcional em português).
- Após a preposição “até”: “Acompanhei o fiscal até a/à porta da sala.”
## Resumo Estratégico: A Crase em uma Tabela
Para facilitar a revisão, organize as regras de forma visual.
| Situação | Uso da Crase | Exemplo Concreto |
| :— | :— | :— |
| Regra Geral | Obrigatório | Substitua por uma palavra masculina. Se virar “ao”, use crase. (Vou à feira -> Vou ao mercado) |
| Locuções Adverbiais Femininas | Obrigatório | Cheguei à noite. |
| Horas Determinadas | Obrigatório | O portão fecha às 18h. |
| ”À moda de” | Obrigatório | Veste-se à francesa. |
| Antes de Palavra Masculina | Proibido | Viajou a negócios. |
| Antes de Verbo | Proibido | Começou a chover. |
| Antes de Pronome Pessoal/Tratamento | Proibido | Pedi a ela um favor. |
| Antes de Nomes Próprios Femininos | Facultativo | Entreguei o livro a/à Paula. |
| Antes de Pronome Possessivo Feminino | Facultativo | Fiz alusão a/à sua proposta. |
| Após a preposição “até” | Facultativo | Fui até a/à secretaria. |
## Exercício Resolvido: Pensando como a Banca
Vamos analisar uma questão no estilo CEBRASPE, que adora explorar a correção gramatical e a alteração de sentido.
Enunciado: (CEBRASPE – Adaptado) No trecho “A política de segurança pública deve obedecer às diretrizes constitucionais”, a supressão do acento grave prejudicaria a correção gramatical do texto. (Certo ou Errado)
* Passo 1: Analise o verbo e sua regência. O verbo é “obedecer”. Quem obedece, obedece a algo ou a alguém. Portanto, ele exige a preposição “a”.
- Passo 2: Identifique a palavra seguinte. A palavra seguinte é “diretrizes”, um substantivo feminino no plural, que está acompanhado do artigo “as”.
- Passo 3: Aplique a lógica da crase. Temos a preposição “a” (exigida por “obedecer”) + o artigo “as” (que acompanha “diretrizes”). A fusão `a + as` resulta em `às`. O uso do acento grave está correto.
- Passo 4: Avalie a consequência da supressão. Se removermos o acento, teremos “obedecer as diretrizes”. O verbo “obedecer” passaria a ser usado como transitivo direto, o que, embora comum na linguagem coloquial, é considerado um desvio da norma culta exigida em concursos. Portanto, a supressão do acento prejudica a correção gramatical.
- Conclusão: A afirmativa está CERTA.
## Hora do Combate: Questões de Concurso Comentadas
Agora, vamos testar seu conhecimento com questões reais, modeladas no estilo de cada banca.
### Questão 1: CEBRASPE
(CEBRASPE – PC/SE – 2021) Julgue o item a seguir, a respeito dos aspectos linguísticos do texto apresentado. No trecho “o direito à vida, à liberdade, à igualdade”, o emprego do acento grave em “à” justifica-se pela regência do substantivo “direito”, que exige preposição “a”, e pela presença do artigo feminino “a” antes dos substantivos “vida”, “liberdade” e “igualdade”.
( ) Certo ( ) Errado
Gabarito: Certo.
Comentário: A questão descreve perfeitamente a regra. O substantivo “direito” rege a preposição “a” (quem tem direito, tem direito a alguma coisa). Os substantivos subsequentes (“vida”, “liberdade”, “igualdade”) são femininos e admitem o artigo “a”. A fusão da preposição com o artigo torna o uso da crase obrigatório em todos os casos. A análise da banca está impecável.
### Questão 2: FGV
(FGV – IBGE – 2017) Assinale a frase em que o “a” sublinhado deveria receber o acento grave indicador da crase.
a) Os pesquisadores deram início a uma nova etapa do trabalho.
b) O diretor conversou longamente com a candidata que chegou primeiro.
c) O problema estava relacionado a uma questão já discutida anteriormente.
d) A casa de meus avós ficava a pequena distância da cidade.
e) A vacina, a qual me refiro, foi desenvolvida por cientistas brasileiros.
Gabarito: Letra E.
Comentário: A FGV adora testar o uso da crase com pronomes relativos.
a) Incorreta. “Uma” é artigo indefinido, não se usa crase antes dele.
b) Incorreta. O verbo “conversar” é transitivo direto e indireto (conversou com alguém). Não há preposição “a” aqui. O “a” é apenas artigo.
c) Incorreta. Mesmo motivo da alternativa “a”.
d) Incorreta. A palavra “distância”, quando não especificada, não leva crase. Se fosse “ficava à distância de dois quilômetros”, a crase seria obrigatória.
e) Correta. O verbo “referir-se” exige a preposição “a” (quem se refere, se refere a algo). O pronome relativo “qual” é precedido pelo artigo “a” (a vacina = a qual). A soma `preposição a + artigo a` antes do pronome relativo feminino “qual” exige a crase.
### Questão 3: FCC
(FCC – TRT/11ª Região – 2017) A falta do acento indicativo de crase compromete a correção da frase:
a) A medida que o tempo passava, ele se mostrava mais ansioso.
b) O autor se referiu a pessoas que não conheciam o projeto.
c) Ele se mantinha a distância de todos os problemas.
d) O trem chegou as dezessete horas em ponto.
e) A funcionária estava disposta a colaborar com a equipe.
Gabarito: Letra A.
Comentário: A FCC é conhecida por ser muito direta e gramatical.
a) Correta. A locução conjuntiva é “À medida que”. A ausência do acento grave configura erro gramatical.
b) Incorreta. Não há crase antes do pronome relativo “que”.
c) Incorreta. Como vimos, “distância” sem especificação não recebe crase.
d) Incorreta. A frase correta seria “O trem chegou às dezessete horas”. A questão pedia onde a falta do acento compromete a correção, mas esta frase já está errada por outro motivo (falta do artigo “as” antes da hora). A alternativa “a” apresenta um erro mais direto na estrutura da locução. Nota: Em algumas provas, a FCC poderia considerar “d” correta, mas “a” é um erro inequívoco na formação da locução. A melhor resposta é a que apresenta o erro mais claro e indiscutível.
e) Incorreta. Não há crase antes de verbo no infinitivo (“colaborar”).
## Armadilhas de Banca: Conheça o Perfil do Inimigo
Cada banca tem um estilo, e conhecê-lo é uma vantagem competitiva.
### CEBRASPE
A banca não quer saber apenas se você decorou a regra. Ela vai apresentar uma frase e afirmar que a retirada ou inserção de um acento grave mantém a correção ou altera o sentido. O foco é na aplicação e nas consequências semânticas. Prepare-se para analisar a regência verbal e nominal em contextos complexos.
### FGV
A Fundação Getúlio Vargas é a rainha do contexto. Uma questão de crase da FGV raramente será sobre uma regra isolada. Ela estará inserida em um texto e exigirá que você entenda a semântica, a coesão e as nuances da frase. A FGV explora casos de ambiguidade e o uso estilístico da língua, tornando suas questões as mais desafiadoras.
### FCC
A Fundação Carlos Chagas é tradicionalista. Suas questões são diretas, focadas na norma culta e na aplicação pura da regra gramatical. Espere por questões de “preencha as lacunas” ou “identifique a frase correta/incorreta”. O segredo para a FCC é dominar as regras e, principalmente, as exceções.
### VUNESP
A VUNESP costuma ser um meio-termo entre a FCC e a FGV. Ela cobra a norma culta de forma aplicada ao texto, mas sem o mesmo nível de complexidade interpretativa da FGV. Suas questões são bem formuladas e ideais para testar se o candidato tem uma base sólida de gramática.
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